Home » Blog » Criptainha 2019, um relato desta primeira safra

Criptainha 2019, um relato desta primeira safra

Fachada do Instituto Arco-Íris

O cenário


"Vento sul
Leva os sonhos de verão!
A hora de plantar
As sementes de inverno"
(Hieronymus Parth)

Em um frio sábado de inverno de 2019 a CripTainha aconteceu, trazendo dezenas de pessoas para um intenso debate sobre tecnologia e política no centro de Florianópolis, também conhecida como Desterro ou Meiembipe.

O evento aconteceu no Instituto Arco-Íris, um espaço que acolhe pessoas LBGT e/ou em situação de rua e também funciona como espaço de prática e ensaio para diversos grupos culturais populares da cidade. No dia circularam por lá integrantes de movimentos sociais, amantes da tecnologia, ráquers, desenvolvedora(e)s de software, curiosas, crianças e pessoas em situação de rua. Esta mistura foi essencial para que houvesse uma rica troca de experiências, com diferentes olhares sobre os assuntos em debate. A própria decoração das paredes do casarão expressava esta mistura, cartazes de boas práticas digitais lado a lado com a bandeira do Movimento de População em Situação de Rua de SC, que fez uma emocionante fala em uma das atividades, e das pinturas da luta antimanicomial, cartazes feministas e da população LGBT.

Consideramos esta junção convergente de públicos e lutas de grande importância no contexto político global, pois demonstra um olhar crítico sobre a tecnologia realizado por diversos atores, que buscam se proteger para agir neste novo mundo de vigilância e modulação comportamental que se consolida. Mas esta convergência também tem uma simbologia para a cena política local, dado que o centro histórico da cidade de Florianópolis encontra-se em intensa disputa, com uma ofensiva de algumas empresas de tecnologia que junto com associações patronais e fundações privadas buscam ali constituir sem debate público o “Centro Sapiens”, ampliando a higienização e gentrificação da região e favorecendo a especulação imobiliária com um discurso de apologia ao empreendedorismo, inovação e a tecnologia.

As atividades

"Procissão pagã
tainhas cumprem seu rito
na praia, o grito"
(Lengo d'noronha
)

Durante doze horas, mais de 15 atividades aconteceram em paralelo, em 3 espaços que denominamos Barra da Lagoa, Campeche e Armação. Começamos o dia às 10 da manhã com um café da manhã coletivo, servido na entrada do evento. Aos poucos as pessoas foram se aprochegando, e as primeiras atividades começaram a acontecer. Durante a tarde, os espaços Barra da Lagoa e Campeche ficaram lotados, com apresentações e rodas de conversa sobre política digital, privacidade, anonimato, inteligência artificial, mídia livrismo, ativismo, software, redes, direito e estratégia.

Já no espaço Armação aconteceu um festival de instalação de softwares livres para libertar e proteger dispositivos. O festival girou ao redor do que chamamos do “Pentagrama da Autodefesa Digital”, um nome carinhoso para um subconjunto de 5 práticas/softwares para Autodefesa Digital: Signal para mensageria, criptografia de discos, servidores seguros e PGP para e-mails, Tor como navegador padrão para anonimato, senhas fortes e o Tails para juntar tudo isso em um sistema operacional. Além da instalação, a cada hora uma das práticas era abordada em uma apresentação rápida sobre os fundamentos detrás de cada uma delas.

Afinal, por que fazemos criptofestas?

"Invento ventos 
que naveguem
levem e velejem
mares de calmarias
tempos de tempestade"
(Fernando Alexandre)

A CripTainha ocorreu em um contexto diferente de muitas criptofestas realizadas no final do ano passado, nas vésperas da eleição de Bolsonaro. Na época, a ansiedade e a conjuntura mostravam ser necessário disseminar o mais rápido possível as tecnologias para autodefesa digital. Agora constatamos que este não é um esforço conjuntural, ao sabor dos ventos, mas sim uma necessidade estratégica em um horizonte de expansão acelerada e global do capitalismo de vigilância e repressão estatal. Portanto façamos criptofestas, em todos os lugares e em todos os momentos!

Percebemos também que existe uma necessidade em se falar sobre tecno-política, e que esta necessidade não é suprida no formato original das criptofestas gringas, cujo foco são encontros para troca de chaves criptográficas e instalação de aplicativos. O público da criptainha, e de outras criptofestas em que participamos este ano está muito interessado em debater sobre tecno-política, em vários aspectos para além da técnica em si.

Um evento simples – Como foi organizar a Criptainha

"O peixe escasso
mede
a graça
da rede"
(Osmar Pisani)

Para organizar a CripTainha não precisamos de muito, pois não estava em nossos objetivos, nem capacidades, fazer um evento grandioso para centenas de pessoas. A ideia inicial de fazer a CripTainha surgiu durante a CripTRA, a Criptofesta do Alto Tramandaí. A maioria de nós esteve no evento e pode ver de perto que é possível fazer algo com poucos recursos. Deste momento saiu um comprometimento em fazer acontecer uma criptofesta parecida em Florianópolis. Essa ideia virou uma data, mas por um bom tempo não era muito mais do que isso. Foi com pouco mais de um mês de antecedência que as coisas começaram a tomar forma.

Abaixo segue um breve relato e nossa avaliação, para compartilhar o conhecimento acumulado e inspirar a organização de mais e mais criptofestas.

Canais para Divulgação

De ínicio criamos um email para a CripTainha no Riseup e um blog no servidor do Libertar.org. Nosso foco principal no primeiro momento, era ter uma cara pública através do blog e abrir o chamado para o envio das atividades. Nossa divulgação apontava para o blog, e foi realizada por e-mail (enviamos para alguns ráquer espaços, listas de discussão de software livre e também pessoas especificas), microblogging (Mastodon) e mensageria (especialmente canais do Telegram, mas também por Whatsapp e Signal). Em nossa avaliação, os memes, textos e artes envolvendo a cultura local foram uma boa sacada para vender nosso peixe.

A arte não digital teve importância para chegar em públicos que não alcançaríamos sem isto. O maior exemplo foram os lambe-lambes que espalhamos por aí. Já os adesivos foram um investimento considerável tendo em visto o total gasto no evento, mas tiveram/terão importância para divulgar o evento.

Por fim, lançamos também um boletim de e-mails, que acabou tendo pouca adesão, em parte porque saiu tarde e teve pouca divulgação.

Organização Interna

Para organizar uma criptofesta, ou qualquer coisa que seja, é preciso comunicação. Para nos organizarmos utilizamos várias ferramentas, cada uma com características diferentes. A principal forma de comunicação entre nós foi uma lista de e-mails no Riseup. Ali falávamos sobre o que tinha que ser feito, como poderia ser feito e o que já tinha sido concluído. Para conversas mais instantâneas, usamos um grupo do Signal. Esse grupo agilizou muita coisa que não podia esperar ou quando estávamos longe do computador.

Para colaboração em textos, usamos o pad do riseup. Uma vez os textos estando encaminhados, eles iam para a rede social we do riseup para arquivo, e/ou direto para o site. No we também tínhamos listas de tarefas, galeria de materiais gráficos para divulgação e a construção inicial da tabela de programação.

Nossas reuniões foram semanais presencialmente, mas chegando mais perto do evento sentimos necessidade de estar conversando com mais frequência então fizemos reuniões online utilizando o Jitsi para afinar os últimos detalhes.

O dia D

É na hora do evento que o grosso das tarefas se acumula. É importante receber bem quem vem chegando, organizar o tempo de cada atividade em cada uma das salas, ter certeza que quem está fazendo a atividade tem a infraestrutura que necessita, passar café, manter a limpeza do espaço, observar as dinâmicas, etc. Além disso, também queremos propor e participar das atividades. Para aliviar essa carga, voluntárias são muito importantes. Mas é um desafio organizar e distribuir essas tarefas. Na CripTainha fizemos uma experiência de fixar um cartaz com duas lacunas em intervalos de duas horas e logo embaixo uma lista de tarefas que conseguíamos prever serem necessárias. No inicio do evento fizemos um chamado para que as pessoas preenchessem as lacunas com seus nomes, ficando assim uma dupla responsável por cada lacuna de duas horas. Mas não funcionou, apesar de que o quadro foi preenchido e apenas uma lacuna ficou vazia, as tarefas acabaram nas mãos de quem estava organizando e algumas poucas pessoas próximas. Provavelmente por que as pessoas que se voluntariaram não sabiam muito bem o que e como fazer e/ou não tinha acesso as informações e ferramentas necessárias para que pudessem fazer o que tinha de ser feito.

Durante o evento, consideramos muito importante ter comida à disposição. Mais uma vez pegando inspiração na CripTRA, montamos uma mesa de comida livre logo na entrada do Arco Íris. Enchemos a mesa de pães, frutas, biscoitos, sucos e café, e na divulgação pré-evento convidamos as pessoas a trazerem comida para compor na mesa. Ficamos bem contentes que muita gente contribuiu com a mesa que ficou muito farta. O rango garantiu que todas pudessem lanchar durante o dia e também serviu de convite para quem tava passando comer um biscoito, tomar um café para se aquecer e quem sabe acabar ficando para uma atividade.

Para o almoço não organizamos nada especial, contando com as opções dos restaurantes ao redor. Analisando posteriormente, não foi uma boa escolha, as opções próximas não agradaram muito e caso tivéssemos optado por uma refeição no próprio evento as primeiras atividades da tarde não teriam ficado tão esvaziadas.

Apoio Mútuo

Tivemos o apoio de pessoas que foram essenciais para que o evento acontecesse. O pessoal do Instituto Arco-Íris que cedeu o espaço, quem emprestou sua casa para receber visitantes, as voluntárias que pegaram firme no dia do evento, as que divulgaram o evento, ministraram atividades, compareceram ou trocaram ideias conosco sobre o assunto. Cada uma fez parte da construção da Criptainha, demonstrando que é plenamente possível contar com a solidariedade das pessoas e construir um evento autogestionado.

Grana

Foram gastos 312,35 reais com o evento, e arrecadados 100 reais na caixinha de contribuições voluntárias que circulou no dia. As despesas foram pagas metade com doações de indivíduos, e a outra metade com uma contribuição do ráquer espaço local (Tarrafa Hacker Clube).

Considerações

"Te desencanta Tainha 
Do grande mar da verdade
Sei que tu ficas brincando
Parto e levo saudade"
(Verso da Brincadeira da Tainha, de Guatipuru, no Pará)

Retomemos o espírito do “faça você mesmo” para ampliar as práticas e discussões das criptofestas para outros lugares. Façamos mais criptofestas!

Também consideramos importante compartilhar o conhecimento acumulado, e nossas dúvidas e angústias com a organização destes eventos. Esta transparência pode ajudar em um processo de aprendizagem coletiva, na identificação de problemas e soluções comuns e também na consciência de que a forma que nos organizamos diz muito sobre o tipo de sociedade que desejamos.

Tainha, Linux e Muito Signal!
Cardume Organizativo da CripTainha 2019

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *